A breve novela onírica de María Luisa Bombal destaca-se por colocar a subjectividade feminina no centro da narrativa, explorando temas tabus para a época como a frustração conjugal, a opressão social das mulheres, a liberdade sexual e o erotismo. O seu estilo funde harmoniosamente a realidade e o sonho, explorando o confronto entre a condição mortal e o sobrenatural através de uma prosa profundamente poética, lírica e musical.
Ana María está morta, estendida no seu leito de despedida e envolta na rigidez da sua mortalha. Mas, enquanto o seu corpo arrefece e o mundo ao redor é um coro de murmúrios, os seus olhos abrem-se para uma última e lúcida vigília.
“Livro de triste magia, deliberadamente suranée, livro de oculta organização eficaz, livro que a nossa América não esquecerá”. Jorge Luis Borges
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María Luisa Bombal (1910–1980). Mais do que os três tiros que se malograram no corpo do grande amor da sua vida, o verdadeiro incêndio de Bombal guardava-se para o embate que travou com a Literatura — única conta que nos cabe aqui desfiar. Aí, a sua pontaria foi implacável e nunca falhou o alvo: feriu de morte a banalidade do amor e da existência, acertando no imo de cada palavra que consagrou ao papel, com o mesmo fulgor com que cingiu o indizível, num sudário de silêncio, às palavras que preferiu calar.
Nascida em Viña del Mar, Chile, mudou-se para Paris na adolescência após a morte do pai. Formou-se em Literatura na prestigiada Universidade da Sorbonne. A educação francesa colocou-a em contacto directo com o movimento surrealista e a vanguarda europeia, o que moldou profundamente o seu estilo narrativo abstracto e lírico.
Ao regressar à América do Sul, integrou os círculos intelectuais mais importantes do continente. Viveu em Buenos Aires na casa do poeta Pablo Neruda, que a incentivou a escrever e a apelidava de “abelha de fogo”. Tornou-se amiga íntima de Jorge Luis Borges e colaborou com a icónica revista literária Sur.
A Amortalhada saiu a lume em 1938… décadas antes da ascensão das vanguardas feministas e da estética do realismo mágico, revelando-se como uma obra profundamente iconoclasta e à frente da sua época.












